20080730
ouve, és tu que me fazes mentir.
ver-te por dentro, o que guardas tu por dentro que me faz o sangue ferver?
apetecia-me deixar a pele á porta da dor e sentir, ó, sentir, como seria bom
dizes tu, ensanguentada, sentir, que mito magnifico. dizes tu, porquê? e eu
não te respondo porque o universo me obriga a fechar a boca e a revisitar tudo o
que fui e o que fiz, porque esse animal grotesco me obriga à dura habituação de espaços
e pessoas, ao amontoar de ossos em mim, retalhos de peles em mim, o estúpido fato humano
que vestimos porque nos convem: e a mim nada me convem, nunca me sinto contente. por isso
apetece-me cortar-te a boca, cortar-te a língua, cola-la em mim, usar-te. apetece-me
usar as tuas falas neste mundo sem cor a viver de cor, apetece-me, sei lá, matar-me mais
que duas vezes, três... nascer por aí, abandonado.
puta que pariu esta felicidade que não cabe em mim!
ouve, apetece-me ser vento.
apetece-me mesmo voar
20080719
20080701
20080618
esta anatomia sufocante e sensual ( diria sexual ) atrai o nosso corpo para
o vinho quente, inebriante, da loucura... e deixamo-nos ir.
preciso de um lar, não me dês outra coisa agora. preciso de precisar
e preciso de ver. preciso que esta máquina volte ao sitio.
somos comboios de carne:
como se a escuridão nos falasse baixinho ao ouvido frases que nos fazem sorrir por dentro:
e descarrilámos: como se o ferro de nós tivesse sido fundido no mesmo tempo, no mesmo sol,
em lugares completamente paralelos: e de súbito as nossas vidas colidem violentamente
deixando atrás de si um passado morto e imensos lugares de sangue e imensos pedaços de outras
pessoas: e o vapor de nos exalta toda a escuridão que libertamos e já nada é preciso ser dito
com calma: gritámos os dois : os dois: dos dois...
chiuuuu...agora devolve-me ao silêncio. há dias em que este medo se esquece de vir. há dias em que, simplesmente,
acordo. e depois regresso ao gigante paralisado que sou, á espera que voltes e que me enchas
de novo de coisas novas que o teu abraço é cada vez mais avassalador.
20080503
então voamos nos nossos sofás
e as nuvens do candeeiro da sala
tiravam-nos da memoria toda aquela confusão
os nossos olhos viam ratos explodir
esmagávamo-nos um contra o outro
[como seria bom
se nos sentíssemos de outra maneira[
saímos á rua
e compraste uma flor, muitas flores
saímos á rua
e compramos uma arma
tentamos morrer
porque as nossas mãos
tinham-se tornado grandes de mais
para segurar o mundo
e falhamos.
não havia ninguem na cidade
e pensamos inventar para nós
uma forma só nossa de falar,
de andar e de nos movermos em redor do ar
descobrimos que os carros não andavam
e as cores eram mentira
os cães que ladravam
sabiam a musica
e então comemo-los
descobrimos que os aviões
não voavam
e que o céu estava escondido
atrás das árvores dos oceanos
das pedras gigantes do passado
dos momentos e dos sons e da luz
e então destapamos o sol
cobrimo-lo com as flores que havíamos comprado
e então destapamos o céu
e matamo-lo.
depois tentamos morrer
e falhamos
outra vez
porque fomos incapazes
de destruir a unica coisa
que ainda era real:
o som de uma bala e de um cranio a explodir:
o nosso amor.
20080424
7 da manhã eternidade
defronte da luz gelada do fim da noite
alguém me chama
daquela neblina quente de vapor
os sofás deitados
e as fotografias a dormir ainda
o telefone toca e tu não atendes
permaneces imovel
no teu futuro incrivel
gesticulas para te manteres vivo
agarrado ás cinzas de tudo o que
nunca te ardeu
no calor doce da madrugada
repete-se o desejo
de correr a cidade e encontrar
mortas em qualquer beco
todas as palavras
o cigarro evapora-se
a lareira liberta a furia de todo o mundo
e tudo arde, e tudo arde
e tudo arde
o telefone toca neste vazio eterno
nas tuas mãos a morte
gesticulas a morte das tuas mãos
nas tuas mãos o cigarro evapora-se
e lembras-te das fotografias que dormem ainda
lembras-te dos olhos e dos braços
porque amanhã é sempre tarde para o coração
lembras-te dos teus passos
mas imovel
amanhã é muito tarde
para que te lembres que continuas vivo.
fechas os olhos e dormes
fechas os olhos e continuas vivo.
calo-me
pq permaneço nas fotografias
e nos sofás
nos lugares e no fogo infinito da noite
e apaziguo a fome
de olhos fechados
na janela do teu quarto iluminada por ti
não morri nunca
na canção da tua voz
eu não morri nunca
fecho os olhos e dormes
e fecho os olhos e durmo
porque eu
eu não morri nunca.
20080412
para ti que tens todos os nomes do mundo
lembro-me. Meu amor, hoje chamo-te assim por não ter melhor ideia de ti. porque quero parecer
por isso sou todo teu. lembro-me querida de ti. lembro-me querida dos nossos gestos em câmara lenta
frame by frame agulhas de pedra no soalho dos nossos ouvidos. câmaras árvores e folhas argumentistas
encenadoras realizadoras. meu amor, hoje chamo-te meu amor porque não quero saber o teu nome porque
o teu nome não me interessa desde que continues aqui, podes ser o vento, ou a chuva, podes ser a
podes... tu podes, porque tu podes tudo desde que continues a ser, ouve-me no silêncio, a ser :
- Meu amor.
20080313
20080301
20080217
não sei em que mês parei. chove água miudinha e delicada salpicando cada um de nós,
regando o nosso saco de ossos deambulante e diletante. chove para que nos sintamos um
bocadinho vivos e um bocadinho tristes. não sei em que dia caminho, em que ano. não
sei viver. sinceramente, não sei viver. não falo e as palavras que digo, não digo porque
ninguém ouve. não oiço porque entre mim e o mundo gerou-se uma constelação de silêncio,
cheia de estrelas e mundos de silêncio, cheios de pessoas e plantas de silêncio,
cheio de pó de silêncio. não me ocorrem palavras porque as esqueci no segundo em que
soltei o abraço do ar e me deixei cair no tempo. nada nos ajuda. nada me ajuda.
tudo o que me toca desaparece, esquece-me, desinteressa-se de mim. não ajudo nada.
o silêncio é a sina da morte e o passado a sua madrasta.
e acordo nestes dias, sempre mal resolvidos, sempre cinzentos, sempre com chuva,
sempre, por mais que não sejam, maus... e sempre o mesmo pensamento banal de
esquecimento, ou sofrimento.
falta pouco. hei-de ser deslembrado brevemente, esquecido. os meus amigos vão arranjar
vidas só deles, com pessoas importantes só deles, e eu que me julgo, certamente,
importante para alguns, vou-me esquecer deles, e vou entristecer ao tossir dos
ponteiros mancos do relógio: tic tacs descompassados a arrastarem um ponteiro atrás
do outro como fazem os coxos com as pernas. e as imagens que tenho deles na minha cabeça
vão permanecer em forma de nostalgia ou de pedra no peito. vou chorar, eventualmente,
a morte de alguns, a perda de outros, o facto de me terem esquecido, essencialmente.
as fotografias vitrinas imensas de pessoas que não posso tocar, nem ver, nem ser capaz
de reconhecer. lagoas de lágrimas . e na lista telefónica do telemóvel um exercito
de cadáveres pronto a atacar por ordem de letras. as mensagens as mesmas de há 10
anos, como se o tempo dos bons tempos tivesse perpetuado e estagnado, e a minha cara
é a mesma de um puto de 18 anos a dizer com certeza que tudo isto é uma baboseira
e que nos íamos ver todos os dias, todas as semanas, sempre, uma vez por ano, talvez
duas, ou três, nas festas de aniversário, na entrega de um prémio de carreira, quem sabe,
na entrega do Nobel da Paz a alguém... e as lágrimas, entretanto, a subirem-me pelo
rosto e a afundarem-se no meu olhar, a molharem-me por dentro, a chorar onde realmente
me dói. porque quando dói ninguém esquece. porque quando dói ninguém esquece. porque
quando dói, teimamos em não esquecer. porque queria doer em alguém. queria que não
se esquecessem de mim, por favor, de mim não, de tudo, de mim não. passar na rua
e saber que passaste por mim e não te dizer nada porque não te lembras que sou eu.
passar por ti e por ela, por ele, por todos vocês, juntos numa reunião casual de
esquina de rua, a falarem dos vossos magníficos empregos, das vossas esposas fieis,
bonitas e fantásticas na cama, depois eu a passar, passeando os bolsos cheios da
inutilidade que fui acumulando ao longo de todos estes anos que estão para chegar.
tenho medo, tanto medo. e a campainha toca, deslizo do sofá com os olhos em lágrimas,
escondo as fotografias no obscuro fim do sofá, abro a porta, antes limpo a cara, agora
sim, abro a porta, um miúdo de 18 anos entra, senta-se em frente ao computador, escreve,
escreve, escreve para que não se esqueçam dele, escreve, só queria doer em alguém,
não uma dor má, uma dor, um prazer, escreve, levanta-se, senta-se, passeia-se inquieto
na sua não existência, cai, caí e de novo o silêncio, essa merda de morte. tão espessa e crua,
a responder por mim. e de novo o silêncio, essa potencia de carne e osso que nos atormenta o medo,
a lembrar-me de tudo o que, miseravelmente, deixei que se esquecesse de mim porque aquilo
que sou, há muito que se deixou de ver no escuro.
20080130
assim como antes
no teu cabelo
num momento eterno do teu cabelo
ou em toda a extensão
de prado
da tua pele
ou em toda a lânguida
e veloz
vertigem
das tuas mãos na minha cara
ou no despir
abandonado
de uma lágrima
vamos morrer
assim
como antes
no silêncio:
a beleza serena
da violência
e das coisas cruas,
o vulto de lamina
do frio
vamos, amor
desaparecer
vamos os dois para perto
do fim
vamos, como dantes
assim, suavemente
morrer.
20080118
20071227
oiço quem comigo trava a mesma luta
oiço o que me bate e o que me ouve
oiço o que me move e o que me morre
oiço plavaras, luzes e cores
oiço o barulho do prazer, do silêncio , das estrelas e do pó
oiço me só a mim e ,só, oiço toda a gente
oiço nada ...
e
oiço te a ti mas só eu sei o tanto que isso me diz.
20071206
a noite já é mais
que a própria solidão da morte
e eu já não preciso de ti
basta-me a rápida procura
do beijo mais próximo da minha boca
e este insólito cheiro a álcool
que me alimenta
são tempos diferentes
dos mais rápidos tempos de outrora
e tento morrer na memória
para que estes dias que não passam
no presente
se deixem diluir no passado
e desapareçam.
perco-me no desaire
das horas
e o sol nasce quase sempre
no mesmo sitio
à mesma hora
o mesmo dele
ele mesmo
inclino a testa
para o primeiro raio de luz
do dia,
o cheiro a pólvora inunda-me o olfacto
deito-me em posição fetal
adormeço no escarlate
e a ternura é tal
que consigo conceber
que nada de ti se passou
não exististe nunca
nunca estiveste cá
nem o meu corpo esteve vivo no teu.
sou imensamente feliz
assim
nas profundezas do meu maior receio
nas ondas turvas do mar
na tortura masoquista da saudade
no harmónico
eterno calor da noite infinita de inverno.
e no inverno pouso
o resto da alma
onde quer ela exista em mim,
para construir um vendaval de palavras
de corpos imundos
abalados
abduzidos da voz
descidos da varanda mais funda
que a morte conheça
onde quer que ainda existas em mim
não morro
só
assim
por não ser tanta a fome,
por não ser tanta a sede,
por não ser tanta a dor
e nada disto, provavelmente,
aconteceu
em qualquer outro espaço de tempo ( em qualquer eu )
20071124
Procuro-me. No escuro. Na luz. Sou um absurdo, tenho medo de ter medo: incapaz. Tenho medo que alguém crie um espaço onde eu possa existir para além de nós, o mais sincero medo possível de existir para além de mim é o meu maior medo. Um grande medo desse medo urge aos saltos maquiavélicos, rodopia nos olhos da minha alma e sou o nada da solidão.
Procuro-me e é inquestionável a falta de presença que se apoderou de mim, cabeça em baixo porque a luz me cega e a minha sombra é escura como a solidão de uma pedra. É incrível como deixamos de fazer sentido quando o que existia de nosso em alguém evapora como uma lágrima do deserto. E aí sou sozinho, sozinho a mando de ninguém, todo meu e o que me rodeia é apenas pó com feitios e silhuetas que gesticulam coisas que não entendo, que falam outras línguas que não a minha. Falam-me do grande domínio e do meu controlo inexistente, de não me perceberam, de me acharem fora do sítio e estranho, de não me compreenderem e eu é que não os consigo compreender. A minha cabeça é a mesma que nasceu comigo. Nunca ninguém me quis compreender verdadeiramente porque nunca foi preciso. No fundo, não sou complicado, sou diferente. Como toda a gente. Todo o mundo é diferente e esse é o ponto mais triste da nossa existência: somos todos estupidamente o mesmo. Previsíveis, estúpidos, problemáticos, incoerentes, mentirosos, hipócritas, egoístas, verdadeiros, sinceros: uma merda, sinceramente.
Procuro-me e o mapa são linhas do fim. Retornos eternamente adiados pela culpa urgente que principia a existir, que não existe ainda, que pode vir a existir e só isso, só por si, me cola ao bordo do presente e me dá uma consciência atípica que não quero colada a mim. A consciência de que onde estou é longe daqui, muito longe do que sinto em mim e procurar-me é perder-me ainda mais, procurar-me é encontrar-te pelo caminho onde também te perdi e perder-me ainda mais, procurar-me é suster o mundo nos meus braços débeis e deixa-lo cair no universo e perder-me, palavra de honra, ainda mais.
Deixamos de existir quando desaparece o único naco de nós que ainda fazia sentido em alguém e eu, tal como tudo o que escrevo, deixei de fazer sentido quando o pedacinho de mim que cresceu em ti morreu e eu o perdi também.
20071115
inferno a frio
a conta-gotas, enquanto o meu peito diminuía e se esvaziava da dor, do prazer. Chorei, a frio,
por ser só desta forma que a dor e o prazer de sentir a dor e o prazer se aviva e se dispersa em
mim, num frio de calor de inferno, onde as únicas palavras se escrevem no espaço da morte de todas as
palavras. sozinho, imortalizei todo o medo que há em mim e chorei, chorei como se o mundo dependesse
de cada lágrima que cedia, como se cada palavra de cada boca, de cada frase de cada ser, dependesse
de todo o meu sofrimento. nem claro, nem o escuro, nem o amor, chorei lágrimas e debrucei-me
no seguro de uma casa em chamas, um imenso lago de inferno em mim fulmina o soro das minhas veias e nesse momento, chorei.
chorei, e que horas serão neste século tão seco?
estarei cá para sempre, a chorar as águas de um rio que passa sempre, sem lágrimas
de criança, porque sempre é o mais ínfimo segundo do choro de uma criança.
choro, para sempre, na companhia de toda a solidão que me comove, nesta solidão
que é ver o meu corpo crescer na vontade viva de um menino quando tudo à minha volta
morre e eu, inconsciente, sigo pelo mesmo caminho.
20071023
acto de fazer nascer
como cegos
ou recém-nascidos
e mesmo assim
inocentes
fodemos
não passamos de animais
nada que seja de ver
lentamente
nos espaços que nascem nas sombras
somos feios
e desajeitados
entre o meu corpo
e o resto do mundo
há uma pele queimada
pelo desuso
porque somos a essencia
natural
de uma natureza narcisista
que ganhou de si propria um pensamento falso
que nos faz sonhar menos
pensar mais
agir contra a lei natural das coisas
que não existe para existir
as nossas escamas
são flocos de sangue
em campos de batalha
imobilizadas pelas espadas
viscerais da saudade
e da vida
contemplamos planos
como se a nossa infância.
o nosso amor,
os nossos sentimentos
doessem
e a mim
só a cabeça me dói
não de pensar
nem de sentir saudade
só de sentir
uma dor de cabeça que me dói
inocentes
como animais
recordamo-nos assim
do prazer
das mãos que criaram tornados
dos gritos e dos gemidos
da dor que se perdeu
no momento
em que nos olhamos
e nos nossos olhos de poço
nos afogamos
nascendo.
20071018
olá às coisas do fim do mundo
cotovelos e olhos sem olhos, só o buraco e nada mais, tudo à mostra, a ver-se a carne de dentro
que não se devia ver, ossos de fora da carne, enfim: nós do avesso.
ouvi dizer que lutaram crianças, nasceram crianças de mulheres que outrora crianças e morreram
crianças como pessoas: olhos de fora, tripas ao relento do lado errado, braços em asas a voar pelo
mundo, pernas presas a minas ( não de ouro ) que desapareciam num assobio grave, pelo ar, como membros
alienados à força de um parto: a urgência de nascer fora do corpo, abrir vida e viver, mas tudo morte a pairar,
a planar como o anoitecer de uma cidade sobre os prédios altos, sobre as árvores, sobre as casas, sobre as pessoas,
sobre o inferno.
mas, comunico, há boas noticias aqui do fim do mundo no que toca a carnificinas: temos carne para muita comida e
comida para muito tempo.
do outro lado, se por qualquer razão há um pequeníssimo cheiro a vida, aqui, só dos cadáveres mais vaidosos.
a lama onde caminho é espessa e vermelha, é como caminhar pela areia molhada de sangue, viver aqui bem que podia ser
descrito como viver numa veia, num coração pulsante. em mim, só a vontade de partir porque acabou e falta-me um
luar a cair do céu nas noites onde as nuvens adormeceram e onde o único barulho que interrompe o silencio perpetuo da
madrugada é um gato negro a derrubar um caixote do lixo, não bombas, nem fantasmas, somente o cheiro das flores noctívagas
que se passeia pela rua onde vivo e um gato, ou um cão, ou uma pessoa que chega a casa do trabalho cansada e com vontade
de se deixar cair e morrer até amanhecer, finalmente, no mundo das coisas da noite.
no mundo das coisas da noite, aqui no fim do mundo só me lembro de ser noite e todas as manhãs que me vêm à memória
diluem-se no profundo escuro das noites que invento, das noites que isto me parece.
mas é tudo morte, ganhámos e a pergunta, deus do céu:
- caralho, vale a pena? valeu a pena?
claro que não valeu, nada assim...não só o meu, o sangue daquela gente também me magoa quando me passa pelo coração,
o sangue daquela gente não é o meu porque o meu sangue já não existe, ou é a água que me lava a cara o sangue daquela gente. porque o meu sangue
já não é meu, mas das almas que o levaram, para longe de mim, para longe do fim do mundo, para longe do meu inferno: para
o paraiso.
20071015
15 de Outubro, 2007, 2 e meia da manhã, segunda-feira a dormir.
E suponho que é aqui que, amigavelmente, encontro a boa vontade à minha espera, deitada solenemente no parapeito do sono esperando que eu a leve pela mão a passear pelas coisas que não entendo. Ora, estou indignado. E o sono não vem. Só lá vive a vontade de dormir.
Não tenho outra vontade nenhuma, motivação, prazer… Ando aqui a assentar tijolo numa casa já feita, a ouvir o barulho das obras que se fazem em mim como sons malucos de um experimentalista nas percussões, quando o que quero é sempre sossego e quando o tenho, sempre barulho.
É que já ninguém está acordado. Só a minha mão e este papel que faz barulho à canetada: dou-lhe canetadas frias e cruéis ao sabor da noite (e um monte de onomatopeias que não existem a surgirem-me do fundo). E tem sido assim, todos os dias, o Amnesiac em repeat pela noite fora até que adormeço, um papel que vou usando para escrever tudo e, de certa forma, esvaziar-me para que caiba em mim o sono ou então, para ouvir-te falar. Como era bom ouvir-te falar. A tua voz doce agarrada ao meu braço e a sorrir-me com os olhos a brilhar e eu queria lá saber o que estavas tu a dizer porque para mim bastava que o dissesses, com os olhos, agarrada ao meu braço e a saltar de alegria como uma criança feliz sempre feliz.
É incrível, que vontade que tenho de morrer para ver como é que é estar morto. Ou para dormir, simplesmente. Para viver sem sono e com os olhos abertos. Tão fácil culpar outra pessoa dos males que temos. Tão fácil inventar situações que existem mesmo mas que hiperbolizamos para que tenham pena de nós. Às vezes sinto isso, sinto que os meus problemas são ninharias mas quando falo com alguém parecem cataclismos à escala mundial mas, não me compreendam mal, é só relativo ao meu tamanho e eu sou enorme. Sou mesmo grande e a superfície de contacto torna-se muito maior pelo que a dor dói-me mais a mim que às pessoas mais pequeninas. Mas nem quero que tenham pena de mim, só quero que me oiçam e que me digam depois :
-E vai tudo ficar bem
Eu queria era dormir. Ou matar-me, mas com o sono que estou, sinceramente, nem um suicídio me saía bem e ainda sujava o quarto. Mais um problema para limpar depois. Vou estar mas é quietinho a olhar pró tecto que se vai enterrando no 2ª andar, no 3º, no céu, em mim, a tua cara, …
20071010
do Livro de Poemas De Amor
uma fome que são estrela a cair na noite
não há noite quando te vejo
e não faz sentido pássaros a esta hora
voar sobre a minha cabeça
e são estrelas a alimentar
que prendo em amarras
que solto quando a minha boca
toca os lábios que deixaste desenhados
neste lugar
quando inundaste o mundo
e fugiste
e o mundo era todo lágrimas
que me queimavam o espelho
e eu só queria
ter corpo ainda
que se sacrificasse
para eu o sacrificar
e distrair a dor
que me faz andar
fugir como tu
para onde tu estás
e eu só queria
fugir como tu
para onde tu estás
do nada cair na palma da tua mão
sentir o teu perfume morrer atrás de ti
quando passas e eu cego
do nada ver-te andar
ao longe
talvez sorrir
ou
acenar
e morrer.
