20170311

E há pedaços de mim
Espalhados em redor desse céu
Como constelações de vapor
Colidindo 
Com o teu desejo de seres maior

Os dias são uma espécie de medicação
Existem para que te mantenhas 
Funcional 
Como uma peça metálica numa engrenagem mecânica 

O que te rodeia 
Desertos imensos de fogo
E dormência 

As tuas palavras 
Vãos de escada desocupados
Latrinas imaculadas
Virgens sedentas de um destino

E o cenário
Um pouco maior que a tua existência
Amedronta esses passos de tempestade 
Inibe esse calor 
Essa vontade

De suprir todas as falhas
Preencher tudo em redor

Saltar desamparada 
Para os meus braços 

Como um olhar desesperado
De uma criança perdida

20140909

Poema de quando nos esquecemos das coisas que importam

Não receies
Escuta

De que outra forma
Se ouviriam ao longe
Tempestades chilrear
Vontades de passarinho
Por entre chacais esfomeados?

Não receies
Escuta

Depois da memória
Há-de emergir uma nebulosa
Formar-se-ão novos anoiteceres
Por entre as manhãs infinitas
Dos tolos

Não receies
Escuta

O teu corpo pressente
Vorazes ruídos de animais extintos
Que são paixões tuas tangentes
Tropéis de lágrimas caladas
Esquecendo estranhos na tua cama
Mil coisas por acontecer

Não receies,
Dá-me ouvidos

Estão entre as palavras
Os cântaros de luz
Que com dedos de seda tacteamos
Perdendo nos recantos turvos da tempestade
O chilrear magnético

Das coisas pequenas.

20140404

poema de uma prisão

vem
que acendes em mim os sonhos
como estrelas no silencioso céu nocturno

vem
donde repousam os deuses e o vento
à noite
traz contigo
betão, muralhas e sangue

vem construir
um universo de ruínas
em meu redor

vem
que em teu ventre sussurram
ânsias de prisão,
jardins e arame farpado

deixa
que eu me encolha
nos meus metacarpos destroçados
de tanto tentar querer
fingir que fujo
empurrando o ferro e as fronteiras

não quero dormir
não quero estar calado
nem quero ter pele
não quero um catálogo de coisas felizes

só quero que
reforces a penitência

só quero que
me electrifiques também os sonhos.

20140318

poema sem ninguém dentro

a noite mostrou-me
sem fígado
pulmões
intestinos
rins
coração
vesícula
pâncreas

só carne
só osso

só um pensamento
ecoando pelas paredes
do meu torso

como um grito muito escuro
numa cordilheira sem gente.

20131025

Para além desse olhar

Um deserto que se afunda
No meu peito

Um mundo inteiro que
A lei desconhece
Que me destrói colheitas
Inteiras
De vontade

Uma tempestade
Que me fala amor
Em sussurros

A probabilidade de encontrar
A cura

Para além desse olhar

Um corpo entorpecido.  

20130915

Das palavras todas

 Existes
Naquela palavra de quando
Tenho muita sede

Nas estruturas de betão que se erguem
Por entre os segundos todos do almoço
Cúpulas de vidro que me deixam ver
Todo o paraíso

Existes
Nos objectos da confeitaria
No meio do balcão ao lado do jornal
No soslaio viscoso da empregada
Na televisão sem som
Na parede suja,
Ao lado da porta da casa de banho

Nos montes insonoros que atravessam
Toda a ideia do Tempo
Num verde impossível
De ser
Tocado

Existes também
No fundo do oceano
Do meu copo de água
No lápis que pinta este incolor tormento
Na espada das minhas mãos
Por detrás daquela portada vermelha
Num jardim com o teu nome
Com todos os nomes
A serem o teu nome

Existes na fome
quando fujo
quando fodo
quando durmo

Existes
Sobretudo
Porque compreendes
Nas tuas entranhas esquecidas de mim
Todas as palavras.

20130902

2 o teu corpo escrito ao longe



Numa folha de zinco a preto. Nunca tive jeito para os primeiros momentos. Tenho a tendência covarde de mostrar os meus defeitos todos imediatamente. Como que a dizer que os arenques do rio dos meus olhos não estão vivos já. Escrevinhado como um sol sem luz num universo de desconhecidos. A nadar num deserto, no tom pálido de um café daqueles onde íamos para falar, com pessoas muito distantes, de olhinhos enfadonhos em letrinhas à sua sorte num jornalito de notícias sempre iguais. A matiné. Os estrangeiros diferentes calcando os soalhos em apocalipses de felicidade. A nossa carinha encostada ao interior do vidro do café com os dedinhos em bico a pegar na colherinha e a mexer a merdinha da mistura que fica no resto do café e do açúcar. A principal faculdade dessa manhã: sou uma merda, fica sabendo, não aprenderás nada que valha a pena comigo, estou a envelhecer, a desperdiçar oportunidades todos os dias, a vida não é muito mais que isto. Uma guitarra brandindo choros de mãe na folha de zinco do teu nome. Ventres esquecidos na maternidade da minha memória. Outro dia sentei-me em casa, moro na frente de um mato, pinheiros altos, sobreiros, terra solta, remoinhos de vento remoinhos de terra solta, abri o estore e pousei quatro livrinhos na mesinha, refastelei-me de pernas abertas contra a imagem do vento a tocar, pentear, os pinheiros para a direita, senti que me faltava um ou dois rins, os pulmões, senti-me morto a tarde inteira. Ouvi um choro diferente. Dizias-me Tudo bem, antes isso que cheirares mal. O teu humor faria rir um Hitler qualquer. Eu também sorri, não muito, para não me mostrar pateta. Queria ter rido tudo ao teu lado se me tivesses deixado. Passei-te o pacotinho, passaste-me o dinheirinho, dei-te um sorrisinho. Fui embora Até à próxima.
            Aprender comigo que comigo nada se aprende. E a folhinha de zinco do teu nome com reflexos rasantes de guitarra a chorar lições de astronomia barata ao ceguinho como um professor mudo num deserto de torturas e memórias.

20130826

As crónicas de Abel Lugaz

 Cap. I

 O que nos separa de cair

Ontem esqueci-me de te ligar. Abateu-se em mim a ideia de Dante. Recolhi-me. Jantei uma sandes de fiambre: se isto não é a tristeza… reguei as plantas e deitei-me na varanda. Esperei quase a noite toda pelo inferno. Que não veio. Porque adormeci. Nem nos sonhos.
Hoje acordei sombrio. Cinzento.
O meu inferno é isto.

Abel - 22 de Março de 1987

20130718

Poema de quem não vê

Não faltam sóis no céu,
mas olhos
e o corpo
abastecido de fome e fúria
perpetúa esta geografia
da solidão.

As falanges das árvores,
os poros da terra,
não faltam flores no mar
mas braços pulsando
por entre os beijos
das multidões.

A solidão das multidões,
não faltam partos e prantos
de morte e ressurreição
mas
procurar
por entre as palavras
e os silêncios
a música que os une.

20130622

ossos
ossos ossos
um sopro de marfim inerte
ardendo no oceano
os nossos ossos
pela mão da maré procurando
o lugar no abismo
que na hora de morrer
os bichos como nós
irremediavelmente confundem
com o paraíso
e a eternidade.


20130601

a perguntar por coisas

Olá – um poema não começa nunca por olá
imagina que te escrevo daqui uma carta
que na vez disto descolas o selo do envelope
que o guardas junto dos outros selos
das outras cartas
dos outros homens
que abres,
não,
imagina que rasgas o envelope
na sede de todas as palavras
como quem morde a língua
para se calar

Como estás? – vamos tornar isto um poema,
não,
esta  carta
sobre ti.

Sei que tens vivido bem e
Que lês isto sentada no conforto de uma casa
Inteira
Que tens amor
Sei que foste aos correios no outro dia
Enviar-lhe uma carta talvez
Pagar a luz
Quem sabe
Esquecer que eu escrevo para ti

Estás melhor
Que estes clichés todos
Eu é que não sei mais
De ti

Se isto fosse um poema
Falaria com certeza
Do chão e das flores e do sol
Da chuva também

Mas é uma carta
Para ti e para a tua
Ausência

Gostava que me escrevesses de volta
Uma resposta qualquer
Que me dissesses
Sinto falta de ti, estúpido
Não precisa de ser uma carta,
Assim,
Pode ser um poema
Pequenino que fosse

Juro,
Juro que já li poemas de uma linha
Que diziam
A minha vida toda


20130521

Voltava a casa. Era fim de noite e os meus sentidos eram um baloiço embriagado, espreitava a espaços os meus braços,  sujeitando-me á decadência ditatorial das luzes da estrada, da janela aberta do sr doutor que a  esta hora acaba de ouvir Mozart e de beber uísque velho e se prepara para enfrentar mais uma noite de solidão, numa cama vazia como uma gaiola aberta, esperando que a luz me guie para bem perto de onde quero estar.

Ao mesmo tempo que a noite se torna um enorme poço de luz e trevas, o meu corpo de baloiço bêbedo desfaz-se num fumo com cores que não conhecemos. e tu vês as minhas pernas em cinza entrarem-te pelo nariz como o odor adolescente da cocaína, todo o meu torso, vísceras, braços, envolvem-te num sono que não se esquece e que te aquece como as manhãs de sol do inverno, pelos meus pulmões sobe até ao teu pescoço um beijo de veneno e a chuva  deste desencontro afaga-te os cabelos. Perguntamos se podemos descer mais, mas mais que isto é tocar no céu.

20130518

Todas as persianas da noite



Todas as persianas na noite,
Purpura de fogo

Esta velhice ansiosa
De querer salvar todas as almas
Sem saber que todas
Exasperam em convulsões de suor
Por entre as mãos das ondas
E por entre o suspiro brumal
Dos sussurros do amor

E do teu suspiro
Só persianas à noite
Que pensas serem casas a arder
O fogo que nunca aqueceu
As tuas mãos
E o mar em volta.

20130502

retrato de uma praia que nunca verei



Prostrei-me sem cor
Tolhido de um frio de morte
Que me descia corpo a baixo
Na mais séria impavidez
Perante o retrato da praia das luzes

A subversão do areal
À noite
Milhares de infâncias rochosas,
Velhices rochosas,
Oblívios do vento.

Como eu,

Que te cubro as pernas
Fechando os olhos da memória

Que te aperto os seios
Fechando os olhos da memória

Que me esqueço de ti
Fechando os olhos à memória.

Aqui onde os meus pés
Atingem o solo como espectros impossíveis
Desaparecendo no levadiço
Que me engole o corpo de pedra,
Da velhice óssea,
Da velhice cárnea,
Evocações do rancor das trevas.

Eu duas pinturas,
Um piano abençoado
Uma única nota desafinada
Uma arte em combate
Contra si própria
Com os pés presos na areia,
Os olhos cegos de falta de luz
A noite fria
E o teu corpo a fazer-me falta
Em todos
Os movimentos.

Eu açambarcando
Um cobertor

A ressaca
A tomar consciência da casa e não da areia
Nem da praia
Nem da noite

Eu um retrato envelhecido
de um corpo humildemente vencido
na doçura de um tempo humanamente parado.