20110410

poema de quando eu tenho medo

vais sobrevivendo mordazmente
aos tambores
de ferver na cidade
de ferver na cidade
DE FERVER NA CIDADE
aos tambores dos velhos na janela
aos tambores dos olhos dos velhos na janela
tacteando com as iris profundas da idade
o cinzento cannabico da juventude da praça
á meia noite
sobrevives
deslizas os braços de um lado ao outro da rua
fachadas de abrigo porque
o mundo não está a cair
mas parece que é inevitavel
que te caia em cima
os teus braços são gigantes
as pessoas páram a olhar para ti
porque tu és de certa forma
excepcional magnifico
completamente banal
uma autêntica besta
o fundo da rua sustenta uma igreja
abriga-te e reza
ou corre para o carro e tranca as portas
desliza os teus braços gigantes no porta moedas
procura as chaves do carro
as chaves do carro?
porque não paraste para rezar?
devias ter parado para rezar que o céu assusta-se
quando lhe falas
e afasta-se de ti
as chaves do carro?
a cidade está a ferver
as lâmpadas gaseadas explodem num pó de carne picada
as chaves do carro, tens que sair daqui
o metal que ampara as parabólicas encarna
discos voadores de canais e canais e canais
de pornografia
no vidro da frente do teu carro
merda
devias ter rezado
as chaves do carro!
vapores de gasolina
o barulho infernal da salvação
corre cavalo de rodas corre
não há vermelhos
tudo é vermelho
a cidade arde ferve arde derrete
tudo é vermelho não há passadeiras
atropela o vento e toda a gente, não há vento tudo é vermelho

é a tua casa
são os teus amigos
sobreviveste e agora chora
é a tua casa eles estão contigo
frescos, suaves, do teu tamanho
mete-te dentro deles
e acalma-te

que a cidade
nunca há-de penetrar no teu peito

por isso não temas um desastre nuclear
mas lembra-te sempre do caminho de casa
lembra-te sempre
do
caminho
da tua
casa.

20110319

mas eu prefiro que não o faças

mata-me que sofro
horrores
e estamos perto
do rio
levar-me-á com ele
ninguém dirá foste tu
amanhã
nem nos lembramos
eu não certamente
como se tivesse deitado a cabeça
no parapeito belíssimo que é
o ventre materno
outra vez

tosse uma pedra
á velocidade da luz
contra mim
o vento está forte
ajudar-te-á
nem sentirás parte de ti
quebrando-me a cartilagem
perfurando o meu lobo occipital
parte de ti
cegar-me-á
como se eu tivesse deitado o olhar
para o mais belo retrato
deste rio
pela última vez
na minha vida

mata-me que sofro horrores
e assim
amanhã
já nem precisamos de nos falar
já pensaste o quão fácil seria
tornar as coisas
milhões de litros de vida mais simples?

20110315

praticamente nada do que me lembro existe. ou existiu. não são raras as vezes em que dou comigo,
numa segurança de pilar, a pensar para o infinito naquilo que tenho, no que tenho realmente
e naquilo que por força não sei bem do quê me foi caindo aos pés e não tenho nada. palavra de honra
que não tenho nada que seja realmente meu. é tudo emprestado, acredito que a minha própria vida
me foi emprestada por alguém que se cansou dela, alguém que a achou demasiado chata e se cansou
dela como se cansam os cães de correr em torno de si próprios: cansaram-me de mim e :
- toma tiago, é tua. agora usa-a melhor que eu.
e a verdade é que não a consigo usar melhor que ninguém.
dá-me uma paz de cegueira inacreditável imaginar o dia em que por alguma razão menos obvia acorde e
pense que estou a viver por dentro de mim. porque nem eu me sinto realmente meu. eu não sou assim,
desta forma, não tenho as atitudes que este corpo arrasta nem falo como eu. eu sou diferente de mim,
completamente o avesso de mim. imaginar uma chuva de raios de sol tocada pelo vento, eu a fugir
mas o calor a correr comigo. imaginar uma derrocada de chuva a soterrar-me o espírito, a arrancar
de mim o espelho da alma, depois a alma, depois a dar-me de novo os meus próprios ossos, a minha carne,
o meu sabor. dá-me uma paz de cegueira imaginar que não tenho alma, nem espírito, nem essas inutilidades
todas que as pessoas inventam de si e sentir-me meu. e mais que sentir-me meu, sentir.
é tão isto : não me lembro da nada que existe, sinto tudo tão distante .
e dá-me uma paz de cegueira imaginar que resolvo o mundo como quem resolve uma equação
- y=2 e x=1
só que em vez de números, palavras, que não são minhas, porque eu não digo isto, eu nunca aprendi a escrever
mas é por teimosia, teimosia persistente, que este corpo, cansado de si próprio, dita coisas que nunca pensei
conseguir dizer. mas é por teimosia, teimosia firme de pilar, que este corpo, mesmo cansado de si próprio,
continua a viver e, cada vez mais, a afastar-se daquilo que realmente sou.

20110220

Sono,
pedras incandescentes aos pés
da minha cama
pedaços de revolta sismica
nos meus lençóis

resgato de mim forças
capazes de
não mexer
uma palha

e

mudo o mundo a cada palavra
que verbalizo num
S
O
S
aflito
num
S
O
S
dolorosamente aflito e mudo
como se ninguém me quisesse
A
J
U
D
A
R
e as barreiras do tempo e do espaço
ganhassem corpo e carne de leão esfomeado
e rugindo afastassem
todas as pessoaas
do meu,
Sono.

20110122

Ontem acho que vi

uma luz,
não
duas luzes
é muito difícil enxergar
com tanta poeira gelada
mas de certo
duas luzes
fulminantes
e sangue
mas
é muito difícil dizer
com toda a certeza
se da cabeça ou do peito
sei que

eu estava sozinho e
a cadeira não me ficava bem,
era como se estivesse nu,
sentado e á espera que
caísse em mim a voz de um anjo,
já agora
já que estamos os dois deitados aqui
nesta poeira gelada

Vamos fazer anjos na neve
deitados no céu
dos anjos de neve

as asas já estão pintadas.

20101229

fiftififti

no outro dia
parti-te a meio
com meia faca
era meia noite
de outro dia
quando a meio da minha solidão
encontrei metade de ti
estou mais ou menos feliz
porque
não sei em que metade do mundo
perdi a metade que falta
e metade de mim acha
que a outra metade de ti
está bem mais perto de se encontrar
com o equador da outra metade do mundo

cuidado com todas as facas do mundo
não vá o inferno tece-las
e fazer com que andemos por aí
ás metades de metades a espalhar pedaços de nós
e depois é
um deus me livre
para juntar tudo
e ir passear
comer um gelado
ou arrumar a casa
que é grande e
metade de mim não chega
para rastejar de costas no pó do coração.
eu não sou uma puta tu é que funcionas na dinâmica do cara ou coroa com a minha moeda.

20101211

Plutão gelou-me a tinta

plutão é mais longe que ontem
tão longe que musica não se ouviu nunca
perto sequer
da sua orbita

plutão é mais frio que agosto
agosto de todos os anos
de todos os anos de todos os planetas

plutão é tão longe como o amor
distancias incalculaveis de negro astral
incomensuravelmente
distante

tão desconhecido e implacável como ele
e mesmo assim
desejo conhecer plutão
todos os dias
desde que te vi
ontem

20101028

Sento-me à lua, queimado de sono contra um muro de musgo natalício de agosto, as luzes como lamparinas de cemitério em novembro, vão bronzeando a alma leve e pueril da minha sombra projectada gigante nas linhas brancas
da estrada, que me dividem em dois de forma matematicamente assimétrica: os carros passam e ignoram-na, resignando-a á
vontade tetraplégica de levantar os ossos da carne de asfalto nocturno, correr de mim para uma pessoa menos feliz, ou menos
triste, ou menos apaixonada, ou menos igual a todas as outras pessoas menos felizes, ou menos tristes, ou menos apaixonadas,
ou mais idênticas a ninguém: e eu acomodo-me consciente da minha pequenez sorrindo como se tivesse um cromossoma a mais no
par encarregue de me dar juizo, ou o caralho que o parta que me faça achar sérias as coisas sérias: e não me faça cuidar
das minhas unhas antes de ter dedos bonitos, ou que me faça pensar que a minha boca dirá palavras de sabão azul, cheirosas
e bonitinhas, depois de chupar a porcaria do caralho do passado, ou mesmo antes sequer de aprender a dizer coisas bonitinhas,
ou de falar: e isto porque o filme não pára e os carros dilaceram-me o torso da alma em ultrapassagens ofuscantes e cheias
de sadismo gratuito de quem não quer mais nada que fugir destas lamparinas e ver desfocado o cliché natalício de agosto: vestindo-te:
vou ficando com a sombra mutilada e sorrio, vou ficando cada vez maior e a ausência de escrúpulos vai-me tornando cada vez
mais próximo da imagem que tenho de Deus: vestindo-te encontro a Natureza: ora igual ao mundo, ora indiferente, ora maior
sempre maior, como se tudo me fizesse, apenas, pequenas feridas na sombra: a Natureza da chuva e da loucura, a Natureza
escondendo-se em roupas de marfim em forma de tornados sobre a pele dos continentes, levantando em fúria o nosso amor
de ontem, destruindo a cama, puxando-lhe os lençois húmidos de chuva e de amor,de ontem, destruindo os pequenos castelos
e as enormes civilizações de germes que fomos criando: e juntamente com este natal de agosto, este calor insuportável
de fim do mundo, estas feridas cada vez mais indiferentes e a minha irresponsabilidade infantil, dá-me cada vez mais
a impressão, que a minha pequena existência, é enormemente similar, á mínima existência de Deus, acima de tudo
porque raramente encontro um ponto final suficientemente adequado para a beleza das minhas merdas

20101018

poema dos meus 84 anos

irmão,
voltaremos de pé
sob fervente água
flutuando no espaço dos oceanos
em cima do nosso próprio caixão
qual vontade louca de não cair
lá para dentro

nas margens
a inquisição espreitando
numa paciência eterna
de milénios

e a água,
digo-te irmão
fechando-se envelhecida
e cansada
dentro das suas tochas virgens
ao som dos nossos aplausos
e
a sua felicidade fervilhando em fumo preto
não das nossas cinzas
não da nossa morte
lacrará as velas
da nossa liberdade.

20100509

eu sei que aguentas, como terias aguentado se descesse em ti o terrível peso
das tetas de Deus, e se te tivesse tocado o Midas gigante
que é o meu ego ou se te tivessem comido viva os cabelos de Medusa do meu amor
intolerante imprevisível imperativo impiedoso imponente improvável e lamentável
é normal que aguentes, como um blindado no deserto, a apanhar com a chuva graciosa
de balas e a tempestade irrequieta de areia que é esta tripulação à deriva
no meu organismo, como uma infecção vestindo o meu coração de cemitério, flores
e lágrimas, e do outro lado, de jardins de Primavera, de flores e risos. como eu sei
que aguentas essa tortura que te suja a língua de beijos e te enche a boca de uma libido
fálica em estado puro. o derrame dos sonhos. em toda a dimensão esguia de um quarto. a janela
servindo para lançar notas musicais, melodias de prazer em chama chamando por todos, por todas,
numa canção sexual incapacitante, penetrante, incoerente.

eu sei que parece difícil mas tu aguentas, até as facas e o fogo e as pedras, esse teu
escudo incapaz é de uma qualidade que nem por sombras consegues imaginar. e incapaz és tu, pelo menos
incapaz de ver onde cresce luz, seguir-lhe o cu esconderes-te nela.

e tu e eu e todos

e eu sei que aguentarias a simples merda de sermos mortais, mas o tempo urge. e eu, tal como tu,
seria capaz de tudo, se por um momento, tivesse pensado em deixar que acordasses. para te maltratar
de forma consciente. teve que ser.

20100505

I'll pay it off in blood, let I be wed

Sinto-me velho desde que nasci. Não é que não signifiquemos nada a vida inteira. Porque significamos.
Mas e o significado que atribuímos às coisa? Não será isso que nos faz ser alguma coisa? E as pessoas não
são coisas. As pessoas existem e a morte é uma puta. Hoje sinto-me especialmente velho. Mas sinto-me velho
desde que nasci, como se tivesse nascido ontem, porque me diverti e hoje estou cansado, porque vi toda a alegria
do mundo, e a tristeza a tropeçar à minha frente e eu a tropeçar nela. Havemos de nos levantar os dois e seguir,
cada um com as suas mazelas, os nossos caminhos, qual guerreiros depois de uma batalha, mas até lá vale a pena
lembrar que nem a mais forte seca torna pequeno o caudal de amor que temos pelas pessoas. Infelizmente
somos estupidos ao ponto de construir barragens ao longo do leito do nosso coração e por estupidez esquecemos
que somos recém nascidos toda a vida, que nascemos com uma deficiência congénita incompreensível à medicina,
à psicologia, à bruxaria: a morte. E por mais horrível que seja a palavra, é essa deficiência que me faz sentir
velho desde que nasci. Eu não tenho medo de morrer, é natural, necessário. Mas a morte é uma puta,e eu só acho que nunca vivemos o suficiente para lhe pagarmos o que ela merece.
A tristeza vai continuar,
meu caro, em todos nós, porque é natural, é necessária. Estamos a pagar por ti, vivos, em pé, por ti, para irritar
suavemente, cada vez mais a cada dia que passa, essa puta que é a morte. E acredita, enquanto nos sentirmos velhos,
doentes, com dores, tristes e contentes, a morte perderá sempre. Por ti, meu caro, por todas as pessoas que têm
algum significado para nós, enquanto vivermos, a morte perderá sempre.


20100206

poema da saga infinita do aneurisma falhado

ás vezes acontece
sentar-me à varanda e parecer
que as montanhas do outro lado
me atacam
com facas
de fumo espesso
e todos os sinais
contados por mim
são vermelhos e
proibitivos
de tal forma que
até o sofrimento queda de me
abafar
e a dor
para de me amanhar
e a luz
cessa de me cegar
de tal forma que
enquanto lês isto parada
todo o meu mundo cessa
de ser lugar

e este movimento
de mil mulheres em
movimento
de mil beijos em
andamento
padece de uma condição imortal
e transforma todo o sentimento
em braços e pernas e torsos
e inunda toda a doença de sangue limpo
e a esperança aparece vestida de vermelho
pronta a dilacerar

canta rouxinol canta
ao longe o teu barulho soa-me
sempre diferente
e as abelhas são sempre de um mel azul
onde passam os meus olhos
não há sinais que me parem
a imaginação


e bêbado continuo
ainda capaz
de entornar dois ou três pingos de sangue
na lua
com precisão e clareza
como uma pétala de flor
a arder
no deserto.

20100131

poema do antes ou do depois da ressaca

um pingo de ácido
no acrílico da tua lágrima
amortecendo o pecado
nestes lençóis

ergue-se no espelho
uma multidão
um motim
um rio um mar
contra mim

meu corpo
tão meu
pintado
no céu

que termine a inocência
no espaço vazio
entre nós

essa indiferença que se levanta
entre o reflexo e a carne
não pode mais ser
tão clara quanto eu turvo

um pingo de ácido
lacrando o meu amor
por mim

de repente
enquanto moribundo o mundo olha
ergue-se no espelho
um novo corpo
imortal

e agora que falo só para nós
vai ser tão difícil perceber
como ver o sol rir ao luar
a morte de amanhã