20130115

As flores da tua sentença



As flores onde germino a secular sentença que me deste estão a crescer de tamanho. Procuro-as e encontro-as: em cada lugar escondido na sombra, em cada jazigo pestilento de um amor luminoso, em cada mulher. Nelas encontro a aura libertadora de todos os céus da noite, das estrelas nevoentas na noite de Dezembro, no tinir necroso dos meus joelhos ao frio: nelas me encontro na minha putrefação luxuriosa e exibicionista: neurótica: como me mostro. Assim me passeio, ouvindo com regozijo os murmúrios da minha sentença ecoar pelo interior oco das bocas, imaculados louvores à minha paixão por ti, flores negras de impassíveis cantoneiros.  A tua sentença no meu corpo sujo. A tua sentença na minha sombra negra. A tua sentença nas minhas roupas pobres. A tua sentença no meu esquálido sorriso. A tua sentença no meu repugnante sabor. A tua sentença no meu absurdo cambalear. A tua sentença espalhando-se comigo na cidade. A tua sentença uma beleza de comprimir o coração. Que nisto de esperar o meu corpo habita. E tão habituado habita, que o musgo da tua sentença cresce junto das flores do teu sussurro, mesmo com a porta fechada, sem luz.

20121111


Limpei a casa, de novo. Pareceu-me tudo igual a quando estava tudo sujo. Suponho que a minha presença é, por si só, suficiente para inundar o ambiente da implacável sensação de nojo.



-Abel, um ano depois de tudo

20120606


tinha acabado de jantar
julgo que
naquela noite, empadão
frio do almoço
e bebi um copo de vinho tinto
e não lavei a louça nem a
arrumei
porque estava a dar a bola na tv
sentei-me no sofá vazio
e a sala transformou-se
num retrato escuro
da minha sombra embutida na sombra do sofá
no centro de uma orla branca
e de
um espaço negro
quando me levantei
o retrato da sala escura
ficou vazio,
só o sofá negro contra
a parede branca
e percebi que o sofá
tinha voltado a ficar vazio
e então percebi
que estava sozinho em casa
e há muito tempo
que não ligava aos meus amigos
e há muito tempo que não tinha amigos
e há muito tempo que não sentia o corpo
de
uma mulher.
lavei a louça e arrumei o prato
o garfo
e o copo
entalei a cadeira
na mesa.
fiquei parado a observar
que a casa toda
5 minúsculos compartimentos
era um continente
pangeia infinita
sorri,
abri o gás e fui comprar tabaco
voltei com uma puta barata
da rua das amendoeiras
abri a porta
e
acendi-lhe um cigarro

20120408

é impossível. esconder tudo não é possível. as palavras na parede, pelo menos elas, continuam lá, e carregam-nos na pele como chaves e abrem-nos o corpo para um inexplicável tormento. será isto aquilo a que chamam o paraíso ou o inferno? um dos dois de certo controlará todos os meus movimentos desde que me levanto até que adormeço, outra vez e outra vez, repetindo simultaneamente os teus gritos e os teus beijos, num loop intenso e incessante nos meus ouvidos e na parte de trás dos meus olhos. não te esqueças que escrevo sozinho, tanto nesta noite como em todos os dias e o teu cabelo continua atrás do meu cheiro e das minhas mãos. senti um bafo quente soprar da porta, o carteiro pede-me que assine, eu assassino. três palavras num papel meio amarrotado, com uma caneta, meia gasta, e ele desaparece. há um zonzo cambalear de ideias e de imagens entre o momento em que me dão um sorriso e aquele em que desaparecem. deus saberá de certo ao que remontam todas estas palavras que nos abrem.

20120122

as cores de terça-feira, uma madrugada e meia

negro: não é tristeza
é
estar cansado
de ser tão feliz
de ter sido tão feliz
de ter que ser tão feliz
negro: não é tristeza
é
estar descansando.

20111219

De como desorganizei o ensino básico

Hoje reparei em Mercúrio
Sendo convulsões de febre pela
Milky way superior dos meus testículos
Ventosas,
Pontas afiadas de agulhas prontas
A metamorfosear oocitos vermelhos
Amarelos
Em pequeninos girinos

E a Mary perguntou-me da cozinha
Em que pensas Alves?

E foi como se Mercúrio implodisse e
Com ele vegetações oceanos de vida em potência
Na parede branca dos meus lençóis

Em nada respondi
Como se fosse possível pensar em nada

Limpei-me
Permaneci quieto porque não é fácil
Acreditar que estivemos tão perto de fecundar
Mercúrio
E mais uma vez
Fodemos tudo sozinhos

Vens almoçar? Tomas banho primeiro?
Perguntou Mary
Soando não como uma perguntadora
Soando mais na forma de um claustro de pedra
Ditatorial
Divinamente ditatorial
Uma igreja

Respondi negando a liberdade de uma terceira opção
Vou tomar banho
Levantei-me quase sem dar conta dos milhões de movimentos
Que os meus músculos iam fazendo para empurrar-me até
Ao duche

Reparei em Mercúrio cada vez mais pequeno
A desfazer-se em pó como no inicio dos tempos
Protoplanetas em colisão
Ventres de mulheres apaixonadas
Dançando
E a água levando de mim
Restos de amor
Deixado em mim
Moendo-me a uretra com Neptuno
Em forma de
Uma consciência pesada.

Saí do banho,
Enfatei-me e engravatei-me
Sorri
Bom dia, querida.

Ninguém deu conta,
Tudo parece igual.

Respiro.

20111116

Partir comprimidos imaginando

Planícies alpinas suicide free

Paris em chamas para me aquecer

As mãos

Helsínquia a pedir esmola em

Santa Catarina

Amesterdão de fato e gravata

Trabalhando das 9 as 5

Numa multinacional que ironicamente produz

Estes comprimidos que parto

Com a precisão de talhante

Que é a profissão mais parecida com cirurgião

Que eu conheço;

Jerusalém de roupa lavada

Chovem foguetes no céu no dia

Das cerimonias fúnebres da mãe da minha vizinha,

Milão

Que se suicidou ontem,

Após uma garrafa de um bom Moscatel e um peixe grelhado

um robalinho do Sado,

á lareira, perto da varanda, que a manhã

ilumina anunciando

num tom de claro desprezo

todo o resto

do universo.

20110904

sobre 7 biliões de pessoas

' vénus perdoa '
esse amor encavalitado
num poço de pedra dourado
porque ela disse
e as escamas de terra
crescem todo o dia
enterrando os vestígios
como adormecendo o passado
num cheiro colonial
de mato e karma
tropeçando aos soluços
no próprio nascimento

porque ela disse
'vénus perdoa' este amor de falta de ar

numa garganta
cortada
e num casaco negro
ao longe
abandonado
escrevendo numa grafia sanguinária
'vénus perdoa' porque vénus perdoar-nos-á


um dia

no dia em que esvaziarmos
esta multidão vampira de justiça
e o amor
sublinhado e a negrito
numa ânsia carnívora de corda
amarrar
em nós
todo o tempo
enquanto cai
desamparado no universo
um corpo
adolescente.