20130115
As flores da tua sentença
20121111
20120606
20120408
é impossível. esconder tudo não é possível. as palavras na parede, pelo menos elas, continuam lá, e carregam-nos na pele como chaves e abrem-nos o corpo para um inexplicável tormento. será isto aquilo a que chamam o paraíso ou o inferno? um dos dois de certo controlará todos os meus movimentos desde que me levanto até que adormeço, outra vez e outra vez, repetindo simultaneamente os teus gritos e os teus beijos, num loop intenso e incessante nos meus ouvidos e na parte de trás dos meus olhos. não te esqueças que escrevo sozinho, tanto nesta noite como em todos os dias e o teu cabelo continua atrás do meu cheiro e das minhas mãos. senti um bafo quente soprar da porta, o carteiro pede-me que assine, eu assassino. três palavras num papel meio amarrotado, com uma caneta, meia gasta, e ele desaparece. há um zonzo cambalear de ideias e de imagens entre o momento em que me dão um sorriso e aquele em que desaparecem. deus saberá de certo ao que remontam todas estas palavras que nos abrem.
20120122
as cores de terça-feira, uma madrugada e meia
é
estar cansado
de ser tão feliz
de ter sido tão feliz
de ter que ser tão feliz
negro: não é tristeza
é
estar descansando.
20111219
De como desorganizei o ensino básico
Sendo convulsões de febre pela
Milky way superior dos meus testículos
Ventosas,
Pontas afiadas de agulhas prontas
A metamorfosear oocitos vermelhos
Amarelos
Em pequeninos girinos
E a Mary perguntou-me da cozinha
Em que pensas Alves?
E foi como se Mercúrio implodisse e
Com ele vegetações oceanos de vida em potência
Na parede branca dos meus lençóis
Em nada respondi
Como se fosse possível pensar em nada
Limpei-me
Permaneci quieto porque não é fácil
Acreditar que estivemos tão perto de fecundar
Mercúrio
E mais uma vez
Fodemos tudo sozinhos
Vens almoçar? Tomas banho primeiro?
Perguntou Mary
Soando não como uma perguntadora
Soando mais na forma de um claustro de pedra
Ditatorial
Divinamente ditatorial
Uma igreja
Respondi negando a liberdade de uma terceira opção
Vou tomar banho
Levantei-me quase sem dar conta dos milhões de movimentos
Que os meus músculos iam fazendo para empurrar-me até
Ao duche
Reparei em Mercúrio cada vez mais pequeno
A desfazer-se em pó como no inicio dos tempos
Protoplanetas em colisão
Ventres de mulheres apaixonadas
Dançando
E a água levando de mim
Restos de amor
Deixado em mim
Moendo-me a uretra com Neptuno
Em forma de
Uma consciência pesada.
Saí do banho,
Enfatei-me e engravatei-me
Sorri
Bom dia, querida.
Ninguém deu conta,
Tudo parece igual.
Respiro.
20111116
Partir comprimidos imaginando
Planícies alpinas suicide free
Paris em chamas para me aquecer
As mãos
Helsínquia a pedir esmola em
Santa Catarina
Amesterdão de fato e gravata
Trabalhando das 9 as 5
Numa multinacional que ironicamente produz
Estes comprimidos que parto
Com a precisão de talhante
Que é a profissão mais parecida com cirurgião
Que eu conheço;
Jerusalém de roupa lavada
Chovem foguetes no céu no dia
Das cerimonias fúnebres da mãe da minha vizinha,
Milão
Que se suicidou ontem,
Após uma garrafa de um bom Moscatel e um peixe grelhado
um robalinho do Sado,
á lareira, perto da varanda, que a manhã
ilumina anunciando
num tom de claro desprezo
todo o resto
do universo.
20110904
sobre 7 biliões de pessoas
' vénus perdoa '
esse amor encavalitado
num poço de pedra dourado
porque ela disse
e as escamas de terra
crescem todo o dia
enterrando os vestígios
como adormecendo o passado
num cheiro colonial
de mato e karma
tropeçando aos soluços
no próprio nascimento
porque ela disse
'vénus perdoa' este amor de falta de ar
numa garganta
cortada
e num casaco negro
ao longe
abandonado
escrevendo numa grafia sanguinária
'vénus perdoa' porque vénus perdoar-nos-á
um dia
no dia em que esvaziarmos
esta multidão vampira de justiça
e o amor
sublinhado e a negrito
numa ânsia carnívora de corda
amarrar
em nós
todo o tempo
enquanto cai
desamparado no universo
um corpo
adolescente.
